Maraí Valente: grafismos em tapetes de couro

A arquiteta paulista Maraí Valente descobre uma nova paixão: criar tapetes de couro pintados à mão com grafismos que lembram a natureza ou os sistemas viários das cidades.

Como surgiu essa vontade de criar tapetes?
No ano passado, eu estava querendo realizar algo novo além da arquitetura e fiz alguns cursos: um com o Gerson de Oliveira, da Ovo, e outro com o Marcelo Rosenbaum. O do Gerson chamava-se Design de Projeto e cada aluno tinha que levar um projeto pessoal para discutir em grupo. Trabalhamos questões de execução e desenvolvimento de produto do começo ao fim, até chegar ao consumidor final.

Batizada Pelle, a marca da arquiteta Maraí Valente, privilegia os tapetes de couro atanado ao vegetal, que não usa cromo no curtume.
Pintados à mão com tinta à base de água, os modelos ganham desenhos gráficos de cores diversas.

E foi a partir daí que veio a inspiração?
Não. A “pele” veio do curso com o Rosenbaum – meu primeiro estágio, aliás, foi no escritório dele. Comentei com o Marcelo que queria fazer algo maior, algo relacionado à sustentabilidade e às questões com a comunidade, coisas que pudessem perpetuar e não só projetos de decoração. Coincidentemente, ele estava inaugurando o curso de Design Essencial na Belas Artes e eu me inscrevi. Nesse período, visitamos uma comunidade quilombola em Ivaporunduva, no Vale do Ribeira, interior de São Paulo. Eles têm artesanato inspirado na história das famílias, usam as matérias-primas da região e queríamos explorar esses pontos sem dizer a eles o que teriam de fazer. A intenção era estimulá-los a virem com as soluções de produtos. Marcelo também nos apresentou seu trabalho com a aldeia Yawanawá, no Acre, que foi evangelizada e, por causa disso mudou o estilo de vida e de produção. Agora, eles estão tentando resgatar músicas e danças que haviam sido proibidas. O Marcelo entrou para ajudá-los no resgate ao jeito de morar, a oca. Decidi visitar o local e me encantei com os grafismos indígenas, muitos deles inspirados nas formas das folhas e dos animais. Voltei com essas imagens na cabeça.

A coleção Urucum traz traços que remetem aos grafismos indígenas, inspiração que Maraí trouxe da aldeia Yawanawá, no Acre.

Quando isso aconteceu?
De julho a dezembro de 2016. E, em novembro, eu precisei dar um presente a um amigo que acabara de construir uma casa na Bahia. Ao pensar no que eu poderia oferecer a ele, busquei referências na minha origem. Sou de Bebedouro, no interior de São Paulo, onde acontece a festa do boiadeiro, sempre fui apaixonada por tapetes de couro e gostava de vê-los nas casas das pessoas. Aproveitei um pedaço de couro que havia sobrado de um projeto de decoração e resolvi fazer um teste. Pintei-o com os grafismos indígenas e dei o tapete para meu amigo.

Na sala, o tapete vira ponto de atenção e forma bela parceria com sofá de linhas contemporâneas.

Os modelos variam de formato, cor, desenho e tamanho: pele inteira ou meia-pele.

E ele gostou? Como foi a receptividade?
Não só ele como as pessoas que estavam participando da festa. Comecei a receber pedidos para confeccionar outros desenhos e tamanhos maiores. Em fevereiro, uma amiga me chamou para participar com ela de um bazar e fiz outros modelos com outras cores. Acabei vendendo todos os dez tapetes e a experiência serviu como um belo teste para mim.

O estilo art déco se faz presente na linha de tapetes Horizon.
Com furos e imperfeições, o couro bovino da Pelle registra as marcas da vida do animal. “Esse é o charme do meu produto”, declara.

Foi tudo muito rápido, então?
Para você ter uma ideia, na semana dessa venda, tive que fazer o Instagram para divulgar os tapetes e já queriam saber qual era a marca. A Gabriela, da Bloco Gráfico, fez o logotipo e ficou genial, tem tudo a ver com os desenhos das peles. Depois, os organizadores da Feira na Rosenbaum me ligaram para eu participar da feira étnica deles.

“Os tapetes de couro têm tudo a ver com nosso clima. Servem ao Rio de Janeiro, Goiás e também aos estados mais frios”, afirma a arquiteta.

Onde você produz os tapetes?
Na sala da minha casa, ainda não montei um ateliê. Tenho bastante espaço aqui para abrir as peles grandes e pintar. Por enquanto, faço dois tamanhos: a pele inteira, de 2 x 2,30 m, e as meias-peles, com 1 m x 2,30.


E quanto às cores?
Uso tinta específica para couro e as cores dependem da coleção. Tem preto, marrom, camelo, caramelo, branco, vermelho, verde, azul rosa e amarelo. Eu pinto à mão com tinta à base de água para evitar agentes químicos. Não quero usar nada que polua ou deixe resíduo na natureza. Seleciono couro curtido com extratos vegetais porque não usa cromo no curtimento. Não quero também o couro perfeito, mas, sim, os que apresentem as marcas da vida do boi. Esse couro, com furos, carimbos e outras imperfeições, ganha classificação B e C e vira estoque morto no curtume. As indústrias calçadista e moveleira não o querem, consideram as marcas um defeito e, não, uma qualidade.

Os modelos variam de formato, cor, desenho e tamanho: pele inteira ou meia-pele.


Quantas coleções você já fez?
Três. A coleção Urucum traz características indígenas, a Horizon é inspirada em gráficos da radisestesia, num estilo mais art déco. Nessa linha, eu tinjo o couro por inteiro e faço misturas com amarelo, rosa e camelo. A mais recente se chama Estruturas e se refere a tudo que se sustenta: um esqueleto, uma estrutura de folha, o sistema viário da cidade, algo mais amplo.

Mais recente, a coleção Estruturas explora desenhos da natureza e também os dos sistemas viários urbanos.

Você já havia criado outros produtos, Maraí?
Fui casada e trabalhei com o Arthur Casas e o Arthur, além de projetos, sempre gostou de desenhar produtos para a casa: maçanetas, coleção de talheres, luminárias, mesas e objetos. Na época em que eu trabalhei com ele, não havia importados como hoje e tínhamos de criar várias peças. Essa foi a minha escola.

Quais serão os próximos passos?
Quero criar uma linha de objetos, que incluirá também almofadas. Não deixei de fazer arquitetura, mas estou muito envolvida com a produção dos tapetes. Meu foco está concentrado nisso agora.




Visite a loja do Pelle by Maraí Valente na Boobam:



Por Regina Galvão
Fotos Luiza Florenzano

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