Estudio Manus: o encontro da arte com o design

A dupla paulista busca na reutilização de formas e objetos sua fonte de inspiração para criar peças de materiais diversos e cheias de personalidade, feitas com técnicas artesanais.

A casa dos anos 1950, na Vila Madalena, conserva as características originais, proporcionando a atmosfera perfeita para expor os objetos do Estudio Manus.

Em meio ao burburinho e à verticalização da Vila Madalena, bairro de São Paulo, repousa uma casinha da década de 1950 com telhado de tesouras aparentes e grandes vãos livres. O espaço, claro e charmoso como ele só, abriga um misto de loja, galeria e ateliê. É o Estudio Manus, nome escolhido por Caio Medeiros e Daniela Scorza nos anos 1990, quando decidiram conciliar namoro e trabalho. “Tem a ver com manual, o feito à mão que prezamos tanto”, explica ela, arquiteta e habilidosa costureira.

Caio de Medeiros e Daniela Scorza formam o Estudio Manus, parceria bem-sucedida desde os anos 1980.
No piso térreo, o mobiliário projetado por Caio Medeiros destaca as coleções de edições limitadas e os objetos únicos, com itens garimpados aqui e no exterior. A escada em formato de barco acomoda luminárias e bandejas.

O encontro do casal aconteceu no ateliê de Reinaldo Lourenço. Dani era assistente do famoso estilista e Caio desenhava os móveis dos showrooms de Reinaldo e também de outros profissionais da moda. Após uma temporada da moça em Londres, Caio e Dani abriram o estúdio, que há 20 anos atua em várias vertentes: arquitetura, cenografia, arte, design e interiores.

Por todos os lados, arranjos que instigam o olhar: da esq. para a dir., espelho de cobre com pés de madeira torneada, mesa metálica com itens recolhidos em diversos países, mesa lateral com tampo de madeira e pé em formato de osso e quadro cedido pela Galeria Utópica. Na parede, assemblagem de porcelana com submarino trazido da Inglaterra.

Na prateleira superior, gaiolas transformadas em assemblagens com a inclusão de fragmentos da natureza e figuras. Na seguinte, porcelanas da linha Volutas e, mais abaixo, utensílios de metal esmaltado franceses e boneco de plástico português. Na última prateleira, vidros e cerâmicas antigas de diferentes origens.

Os primeiros produtos assinados em parceria foram espelhos, logo depois vieram as porcelanas – cartão de visita da marca. “Nossa criação inicial foi a xícara alada”, recorda-se Dani. A peça nasceu durante uma visita à tradicional fábrica Porcelana Teixeira, em São Caetano do Sul. “Queríamos produzir moldes especiais, mas não foi possível, então começamos a inventar os modelos a partir do que eles já dispunham no estoque”, afirma Caio.

As asas de um bibelô do acervo da Porcelana Teixeira viraram alças para a linha Alada.
Coleção de utilitários Sorrisos: o bom humor é outra característica da dupla.

Foi assim que a asa de um anjo se tornou alça de uma xícara e a alça de uma ânfora virou adorno para vasos e travessas. Na lógica do Estudio Manus, a poesia sempre prevalece: o bule ganha carimbo de sorriso e a figura do Buda vai parar dentro da vasilha ou do copo de porcelana branca.

Sobre a bancada central no térreo, tábuas de madeiras brasileiras certificadas com inclusão de latão, produzidas em parceria com a Llussá Marcenaria, e conjunto de luminárias de madeira carbonizada e modelo feito com fôrma de bolo.
No salão superior com tijolos originais, mala de couro inglesa dos anos 1910, Buda na Bacia e luminárias de tela de cobre com fio de tecido e de madeira torneada e carbonizada. A cadeira austríaca Thonet exibe almofadas de couro costurada à mão por Daniela com aplicação de relevos de volutas.

Mobiliário e luminárias de edições limitadas e esculturas únicas também fazem parte do repertório dessa dupla, amante de viagens. A primeira delas foi para Patagônia, de onde trouxeram um remo descoberto numa geleira e que, com algumas interferências, ganhou relevâcia na parede. Do Vietnã, vieram malas carregadas de outros achados. “Até gaiola nós compramos”, contam. Esse pequeno acervo, acrescido de páginas de livros antigos e de peças herdadas de família, fomenta as criações artísticas.

No parapeito entre os dois pisos, esculturas com peças da Islândia e do Japão protegidas em redomas de vidro. Ao lado delas, porcelanas de edições limitadas e a coleção de luminárias de mesa com tubos de cobre. No alto, fica o pendente de latão com coelho de pelúcia proveniente da Alemanha.

De tão particular, o trabalho despertou a atenção de uma curadora da Maison Objet Paris, feira francesa de design, que visitava São Paulo em busca de novidades para o evento. “Durante a exposição, os europeus foram muito receptivos às nossas peças e teorizavam sobre os objetos de uma maneira que nós mesmos nunca havíamos pensado”, afirma Dani.

No carrinho de consultório de metal encontrado no Rio de Janeiro, par de latas comprada em Portugal e escultura de Bambi de porcelana alemã dos anos 1940. A caixa de madeira veio do Japão e o coral, encontrado na areia e transformado em gancho, de uma praia do Caribe.

Logo depois, eles foram convidados a expor na Inglaterra, em Bruxelas e tiveram itens selecionados para a loja do Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova York, e da galeria HPGRP, em Tóquio. “Há muita troca em nosso processo de criação. Sempre estamos questionando um ao outro sobre o que um objeto pode se transformar. Procuramos o caminho da negação, do que ainda não foi inventado, sem deixar de levar em conta a estética, a leveza e a poesia”, conclui Caio. No momento, ele se divide em projetar um condomínio de casas no litoral norte paulista e fazer um roteiro de viagem do Japão para uma amiga querida. Dani, por sua vez, mantém as visitas frequente à fábrica Porcelana Teixeira para cuidar de perto da produção das coleções em linha e também das produzidas especialmente para casamentos.  

O Elefante com o Pé na Lama é um dos itens lúdicos da coleção. As porcelanas podem ser foscas ou brilhantes e também receber acabamento de folha de ouro.

 

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Por Regina Galvão
Fotos: Luiza Florenzano

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