Entrevista | Rahyja Afrange

A filosofia do seu estúdio é “viver bem em ambientes encantadores” – conte um pouco como foi a transição da arquitetura para o design. 
A arquitetura continua muito presente em meu trabalho, costumo brincar que é uma questão de escala e tempos diferentes. Acho que meu processo criativo é moldado pelo pensamento arquitetônico, pela lógica dos materiais, funcionalidade e simplicidade. Isso é bem claro quando estou criando, desenhando ou detalhando uma peça nova. É claro que não abro mão do desenho técnico e 3D, mas adoro fazer maquete física e sentir as proporções na mão. Vejo o design como uma ferramenta para pensar em como as pessoas vivem, nas possíveis interações do objeto/mobiliário com os usuários e como tudo isso se relaciona com o espaço.

A sua trajetória no design começou com uma experiência na Dinamarca / Copenhague – a capital mundial do design. Conte um pouco sobre a influência do design nórdico no seu trabalho.
Arquitetura e design escandinavo muito me instigavam desde a faculdade. A experiência de estudar em Copenhage foi interessante, uma imersão na cultura e contato com professores incríveis, escutei relatos de designers jovens e consagrados, vi artesãos trabalharem de perto e também visitei produção de indústrias como Fritz Hansen, Ikea, entre outras. Vejo a influência do design nórdico no meu trabalho quando busco mostrar os materiais naturais da forma como são, com simplicidade. Quase como se a peça contasse sozinha a maneira como foi construída, tendo a funcionalidade como ponto de partida de cada projeto. Acho que estes pontos também estão muito presentes no design japonês que também muito admiro.

Você utiliza muita madeira e feltro de lã natural e prensado. Qual a inspiração para este estilo?
Tenho a memória afetiva da madeira desde minha infância, quando saíamos nas expedições no mato para construir “cabanas e casas na árvore”. É um material rico, cada uma com seu cheiro, textura, densidade característicos. Na maquetaria da faculdade, PUC-Campinas, retomei meu contato com a madeira em algumas matérias quando projetamos e executamos alguns móveis para o prédio novo que acabava de ficar pronto.. Antes de ir para Copenhague, fiz um curso rápido com o Piero na Cosi di Legno, aqui em São Paulo. Quem trabalha com madeira acaba se apaixonando, mesmo com todo pó, é demais a sensação de sentir o cheiro e a textura crua. Acaba sendo uma paixão, não tem jeito… Já minha história com o feltro foi um pouco diferente, um processo mais intuitivo. Comprei alguns retalhos sem saber no que se transformariam. E foi na investigação do material, com cortes e dobras de uma superfície plana que os objetos multifuncionais da linha LAB surgiram. As peças trançadas (Barracuda, Tube, Mat e Vase) surgiram logo em seguida, quando estava prototipando o “estofado” da poltrona SE7E com tiras de feltro para a primeira edição do MADE 2013. O feltro já estava cortado em tiras e comecei a trançar e experimentar novas formas.

Com quais outros materiais você gosta de trabalhar?
Costumo brincar que sou colecionadora de texturas e materiais e quando falamos em materiais naturais nosso país é um mar infinito de possibilidades. No ano passado tive a oportunidade de trabalhar com latão e inox e gostei muito. Destes materiais surgiram os vasos, que se estruturam a partir da dobra da chapa quase como um origami. Tenho planos para trabalhar com vidro. Sou fascinada pelo contraste, transparência e delicadeza do material.

Você nos contou sobre a diferença do “tempo” do design e da arquitetura, sobre o processo de experimentação, da busca pelo aperfeiçoamento da ergonomia e do uso dos melhores acabamentos, enaltecendo a beleza do material na sua forma pura. Um exemplo marcante deste processo é a Linha SE7E, conte um pouco sobre o processo desta linha.
A linha SE7E foi um grande desafio na minha trajetória, talvez por ter sido a primeira experiência concreta no mundo do design. O desafio começou em encontrar um parceiro que topasse produzí-la. Muitos desenhos, maquetes e 3Ds foram feitos, mas somente com os protótipos que realmente conseguimos os ajustes de ergonomia. A escolha das madeiras e acabamentos que tivessem as características adequadas ao desenho, no caso da cadeira, a madeira freijó foi escolhida para a estrutura e o cumarú para as ripas. E durante esse processo sempre tivemos a preocupação de viabilizar economicamente a peça como produto.

Quais foram os momentos mais marcantes da sua carreira, até agora?
O prêmio ICFF Design Award em 2013 foi muito especial, pois estava começando e não tinha certeza se estava no caminho certo ou se devia voltar a trabalhar em escritórios de arquitetura. O reconhecimento, participação na feira e contato com todas aquelas pessoas me deu uma perspectiva muito bacana das possibilidades que eu poderia encontrar no design. Outro momento muito bacana foi em 2014 quando lancei a linha LAB no festival de design DMY em Berlim e logo em seguida a poltrona SE7E e VASE em feltro foram nomeados ao German Design Award.

Os maiores desafios de comercializar os seus trabalhos no Brasil?
Tenho amigos designers em diversos lugares do mundo e quando nos encontramos notamos que os desafios são muito parecidos. Quando falamos do design autoral, os desafios são muitos: achar fornecedores parceiros que compartilham dos mesmos valores, viabilizar uma auto-produção equilibrando escala de produção com valor final de cada peça, encontrar meios de divulgar e então comercializar cada peça. Como consumidora sou muito exigente, valorizo a compra consciente e quero saber como foi produzido. Então, eu valorizo muito quando vejo um produto que conta todo seu processo de produção e dedicação envolvidos.

Quais são os seus 3 trabalhos favoritos? Fale sobre a história e o processo criativo de cada um desses trabalhos.
Esta pergunta é muito difícil, seria a mesma coisa que pedir para escolher seus 3 filhos favoritos… rsrsrsrs Te listaria alguns dos projetos desafiadores… Cadeira SE7E por ser o primeiro projeto, me demandou muita dedicação e empenho. Seu projeto criativo foi intenso, uma semana desenhando no estúdio e 2 semanas intensas para a produção do primeiro protótipo. Também tenho um carinho grande pelos estiletes de madeira, a idéia surgiu de um garimpo na marcenaria que possibilitou dar vida aos pedaços pequenos de muitas madeiras nobres. É um objeto simples que quase todo mundo tem em casa, mas geralmente ninguém dá muita atenção. Acabou sendo um sucesso e um presente curinga! Estou produzindo agora a 3a edição dos estiletes, que assim como as anteriores, será uma edição limitada e cada peça terá o nome da madeira e seu número gravado a laser.



Quais artistas ou designers você admira?

Pergunta difícil, eu poderia fazer uma lista enorme… Admiro muito o trabalho de Sérgio Rodrigues, Jorge Zalszupin, Cláudia Moreira Salles, Álvaro Siza, Cecile Manz, Erling Christoffersen, Rasmus Fenhann.

Sites favoritos?
Prodeez.com
Kinfolk.com
Disegnodaily.com
Artsy.net

Projetos futuros?
Estou grávida e estou super envolvida com alguns projetos voltados para o bebê que ainda estão em fase de protótipo, mas posso adiantar que o projeto de berço foi pensado para acompanhar as mudanças do bebê até os 5 anos. Com peças modulares e de fácil montagem, ele se transforma em mini berço, sofá, cama e estante para brinquedos. Com desenho simples e alinhado com todas as regras de segurança, feito em madeira nobre brasileira para durar por gerações.


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